Delírio da Alma

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És Capaz de Guardar Um Segredo?

De Sophie Kinsella. Uma mulher vê-se descoberta nas suas mais mirabolantes mentiras. Viciante e muito divertido!

Nosso Lar - A Vida no Mundo Espiritual

De Francisco C. Xavier. O relato comovente do espírito André Luíz após a sua chegada à espiritualidade.

Crepúsculo - Série Luz e Sombra

De Stephenie Meyer. Uma bela história de amor entre uma humana e um vampiro, uma viagem ao maravilhoso.

O Delírio da Alma

Com alguns traços e palavras se desbrava a profundidade de uma alma...

Vamos viajar?

 

White Feather

O Despertar
Suspirou uma vez mais. Profunda e lentamente. Abandonou o olhar do céu, e deparou-se com o vazio. Era mesmo verdade, a rua estava deserta. A imensa rua, sempre movimentada, com pessoas e máquinas barulhentas e poluentes, respirava silêncio.
Sentiu-se inundar por uma estranha excitação. Finalmente, o ser humano reduzira-se a si própria, a sua única e melhor amiga, fiável e incapaz de se magoar a si mesma. Mal podia acreditar. O seu desejo de paz, de não mais ser ferida pelos seres humanos co-habitantes no planeta, havia sido concedido quando nem ela cria que tal fosse possível.
Teve vontade de saltar de alegria, de gritar a plenos pulmões. Poderia agora fazer tudo, o mundo pertencia-lhe. A ela. Só a ela. Era maravilhoso!
Entrou no carro, sentindo-se já livre. Livre da sua triste vida, em toda a plenitude possível.
Começou a conduzir sem rumo, pelas ruas conhecidas e ao som dos seus pensamentos. Nenhum carro na estrada para a prender no trânsito, para buzinar à distracção dela, nenhum peão para correr o risco de o atropelar.
Deu-se conta que tinha um sorriso estampado no rosto ao virar uma curva. Sempre pedira aos céus por aquele presente, a felicidade de ser a única pessoa viva no mundo. Não ter de ser cordial com quem tem vontade de esganar, não correr o risco de confiar e ser traída, não se magoar pelas desilusões humanas. Era tudo o que sempre havia desejado, e finalmente, era uma realidade.
Acelerou quanto quis na recta. Não havia risco, nem nada a temer. Assim fizera no seu último relacionamento. Conhecera o Ivo numa festa de aniversário de uma amiga em comum, e ele encantara-a rapidamente. Tinha um sorriso maravilhoso, olhos brilhantes e que invadiam a alma, e quando olhou para ela, não a largou mais. Durante todo o tempo tentou estar perto dela, brincava para a fazer rir, e ela ria, sem pudor mas com timidez. Sentira-se bem por todo o tempo que demorara a maquilhar-se, pois sabia que estava linda naquela noite.
No final da festa, ele pediu-lhe o número de telefone, e ainda nesse dia, antes de dormirem, trocaram mensagens. O flirt continuava, e o pensamento dela começava a dar largas à imaginação. Começaram a sair, e ele era atencioso e descontraído. Em pouco tempo, namoravam.
Ela nem podia acreditar que lhe saíra a sorte grande. Não se viam sempre, mas quando se viam era maravilhoso. Ele levava-a a jantar e ao cinema, quase sempre a sessões tardias (dizia ele que se sentia mais envolvido no filme), e terminavam sempre na cama dela. Uma vez, ele até aceitou ficar lá a dormir.
Acreditava que tinha mais do que alguma vez esperara de um homem, e deixou-se envolver totalmente. Todo o dia pensava nele, em agradá-lo, em estar com ele. Mandava mensagens, convites, esperanças. E começou a sentir necessidade de mais. Queria mais tempo dele, mais carinho, mais atenção. Tentou mostrar-lhe isso discretamente, e ele não percebeu. Foi clara nas suas vontades, e ele ignorou gentilmente. Ficou confusa. Confusa e perdida. Amava aquele homem com todas as suas células, e ele parecia ter para ela apenas parte da sua vida, como se sempre houvesse um muro entre eles, e se vissem um ao outro de vez em quando, por cima do muro.
Acabou por saber que ele tinha uma namorada. Outra que não ela. Há oito anos. Sentiu-se humilhada e ferida, sobretudo quando tentou falar com ele a respeito e ele lhe disse com todas as palavras que ela era apenas um entretenimento enquanto a namorada fazia turnos como enfermeira. Mas que tinha sido bom, e que ela era óptima na cama.
A lembrança das suas palavras fez renascer dentro dela a raiva que sentira. Apertou o volante com as mãos, com toda a força, e o pé fincou-se no acelerador. Via o rosto dele, o sorriso que a hipnotizava, o amor que a sufocou sem piedade. O ponteiro do conta-quilómetros precipitou-se sem medo pelos números acima, como se não houvesse travão.
"Ele não te merece.", ouviu a mãe dizer-lhe novamente, tal como quando lhe contara o sucedido.
- Ele não me merece... - murmurou.
Relaxou o pé direito, e pestanejou, como quem desperta de um sonho. Deixara-se levar pela liberdade de um mundo sem gente, mas esquecera-se que as estradas mantinham as curvas de sempre. Abrandou bruscamente, até o carro parar. A respiração não tinha ritmo certo, mas vibrava entre "rápido" e "muito rápido".
Fechou os olhos e tentou estabilizar. O som do motor ainda a embalava na confusão das emoções, mas de uma ideia estava certa: estava feliz por o Ivo ter desaparecido da face da Terra. O mundo tinha ganho imenso com um canalha a menos. Claro que não era o único que existira, mas era dos piores.
Mais calma, reiniciou a marcha, novamente sem rumo definido. Sim, sofrera por amor, mais do que uma vez. E daí? De todas as experiências tirara lições. Quanto mais não fosse, a ter muito cuidado antes de se apaixonar por alguém.
Mas verdade seja dita, nas amizades também tivera os seus dissabores. A amiga em que tanto confiara, e que nas suas costas, tornava públicos os segredos que ela lhe contava. Apanhara-a em flagrante, quando comentava sobre a relação dela com o Ivo, e se ria por ela sentir que "o mundo tinha acabado". Rira-se da dor dela, e isso só causara mais dor.
As lágrimas traíram-na também. Sem deixar de conduzir, limpava o rosto com uma e outra mão, e deixava as gotas pingarem abandonadas dos seus dedos, e escorrerem pelo volante. Voltou a parar o carro, desta vez sem correr nenhum perigo. Olhou para o horizonte, e viu o mar beijar a praia onde o destino a levara naquele dia de solidão eterna. Teve vontade de misturar-se naquele véu escuro de mistério e sossego, de deixar-se levar pela ondulação até não ter mais forças para se manter à tona, até não ter mais respirar.
Soltou um soluço profundo. O sorriso já não existia no seu rosto, e as lágrimas haviam perdido o controlo. Saltavam suicidas, umas após as outras, quase sem intervalos. E os soluços também se multiplicaram. O seu choro inundou o carro no som do lamento, da tristeza. Chorou todas as memórias dolorosas, todas as desilusões, toda a solidão. Toda a solidão que sentia bem dentro de si, e que mesmo tendo vivido num mundo cheio, nada acalmara.
Deu-se então conta do quanto precisava de um abraço. Do calor humano, de alguém. O desespero começou a formar-se na sua garganta, e o coração disparou. Queria amor, queria sentir, queria um mundo que fizesse sentido. O seu olhar saltitava em redor, misturado nas lágrimas e na busca de um sinal de vida, mas tudo o que recebia em resposta era um mundo sem ninguém.
Lembrou-se das gargalhadas, dos sorrisos, do mimo. Da sensação de um beijo caloroso, de um carinho no rosto, um dar as mãos. As conversas desfiaram-se-lhe no pensamento, em palavras de consolo e apoio que tantas vezes dissera a outros e ouvira ela também. Lembrou-se da satisfação de um elogio, de se pôr bonita para alguém e isso ser apreciado. As tardes de chuva no sofá, enroscada numa manta a ver um filme e a comer pipocas com a mãe. As alegrias de criança, as brincadeiras de adulta.
Percebeu que todas essas coisas jamais iriam repetir-se. Estava só, e o amor é um laço com várias pontas.
O coração diminuiu-lhe de tamanho, até quase deixar de o sentir. O desejo do abraço transformou-se em necessidade, e de necessário passou a essencial. Sentiu tudo nela parar, como um carro que fica sem gasolina. Deixou a cabeça cair sobre o volante, com as mãos lá agarradas, e percebeu que o arrependimento do seu pedido tomava forma dentro dela, e a consumia por inteiro. Preenchia-lhe todo o corpo, todo o pensamento, e toda a alma. Jamais deveria ter pedido para viver num mundo sem gente. Esse seria um mundo sem dor... Mas seria também um mundo sem amor.
Desconcertada, saiu do carro, deixando a porta aberta. Num mundo vazio, não há ladrões.
Avançou na direcção das rochas que desfilavam até serem engolidas pelo mar em salpicos e embates consecutivos. A irregularidade do piso não representava qualquer entrave. Os seus passos eram também irregulares, mas sem interrupções. Seguia sem um pensamento certo, e quando chegou à última pedra, aquela que dava início a um pequeno precipício vertical com a escuridão da água lá em baixo, parou.
Não sentiu medo. No seu corpo nenhum fragmento de nervosismo se fazia presente. Não tinha com o que se preocupar. E isso era o pior. Não tinha ninguém com quem se preocupar, nem ninguém para se preocupar com ela. E por isso mesmo, a vida não valia a pena. Existir neste mundo, não fazia sentido.
Antes de dar o passo em diante, ergueu o olhar para o céu, abriu os braços livres, e questionou-se se Deus também teria desaparecido.

*

- Tens a certeza?
- O quê?... - disse ela, para a voz que a despertou.
- Acabaste de dizer que querias que toda a gente do mundo desaparecesse e só ficasses tu. - a mãe respondeu. - Tens a certeza que querias isso?
Num impulso, abraçou-a como se fosse a primeira vez que conhecia o gosto de dois braços ao seu redor. Sentiu o alívio percorrê-la da cabeça aos pés, como se uma luz se acendesse na sua alma e a aquecesse subitamente. O amor é uma força poderosa.
- Tenho. - respondeu, sem no entanto largar o abraço da mãe. - Tenho a certeza de que não quero isso.


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Olhos Vazios

Os meus olhos são silêncio.
Da minha alma, o eco escorre sem destino.
Não tenho para onde ir,
Nem sei se quero partir.
Nas mãos agora vazias,
De memórias, de fantasias,
Já não bate um coração.
E o tempo, esse velho companheiro,
É tudo o que resta,
Além da triste recordação.
É um luto, a perda do que
Na verdade, nunca se teve.
A certeza, a esperança, o sonho...
Tudo mera desilusão.
Fecho os olhos, fecho a alma,
Fecho-me a tudo em redor.
Quero espaço, quero calma.
Já não sei o que é amor...

 

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O Tempo
Não seria totalmente novidade que o tempo tem um papel crucial para nós. Mais do que aquilo que eu gostaria, para dizer a verdade.
Sei o quanto o tempo é imprevisível. Como ele nos surpreende quando esperamos uma coisa, e depois isso muda. Muda a coisa, muda o nosso desejo dela. A espera muda-nos. E não raro, quando nos damos conta, percebemos que se calhar já nem queremos aquilo por que estávamos à espera.
O tempo é assim, matreiro. Apanha-nos desprevenidos, e deixa-nos desprevenidos quando liberta no Presente o que no Passado esperávamos para o Futuro.
E é por isso que é tão difícil sermos amigos do tempo, apesar de andarmos sempre de mãos dadas. Nós à espera que ele se decida; ele à espera que mudemos de ideias para se decidir.


White Feather
26 de Setembro de 2010
 

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