|
Tenho o coração aos pulos no momento em que o Eduardo toca à campainha. Há muito tempo que eu e o Zé esperamos por este momento. A Joaninha é como uma filha para nós, um verdadeiro doce, e não temos dúvidas de que os pais dela devem ser pessoas maravilhosas.
Quem nos abre a porta é a Joaninha, e está linda com o vestido novo que o Eduardo lhe deu. O meu filhote teve bom gosto! Este casamento será óptimo. A casa é fantástica, parece das revistas chiques que vejo na cabeleireira. Com móveis elegantes e muitos quadros e pratos na parede. Nunca percebi muito bem esta ideia de pendurar pratos, até porque não deve dar jeitinho nenhum estar sempre a tirá-los de lá para comer e voltar a pendurar. Mas gente chique é que sabe. O pai da joaninha, o António, é muito bem parecido, ela sai a ele. Grisalho, com sorriso bonito… Adoro homens grisalhos, vou ver se faço umas madeixas ao meu Zé, vai ficar um galã!
Com gentileza, convida-nos a sentar e serve um vinho do Porto. Espero que não haja muita bebida, o Zé tem dificuldade em controlar-se. No último jantar em casa dos nossos vizinhos, acabou a tirar a camisa e a coçar os sovacos como um macaco, a dizer que tinha calor. Mas onde estará a mãe da Joaninha? Já se sente o cheirinho da comida. Deve ser frango assado. Ah, aí vem ela. Meu Deus! Mas que finura! É uma elegância! Vê-se bem que é pessoa de berço. O fato aos quadrados é mesmo chique, tenho de ver se a Fatinha me faz um com a bombazina xadrez que comprei na feira. Tenho de olhar bem, para decorar o modelo. - Muito prazer em conhecê-la, Angélica! Adoro a sua roupa! – digo, agarrando a mão dela e dando um firme aperto de mão. As primeiras impressões são importantes, diziam na Lux do mês passado. Ainda bem que trouxe as minhas calças beige e a camisa de folhos. Toda a gente diz que me fica a matar e que pareço do Jet7. Aposto que a mãe da Joaninha vai querer copiar o modelo. Ela agradece o elogio e leva-nos para a mesa, na sala de jantar. O cão de pêlo aos caracóis gosta dos sapatos novos do Zé. Eu disse logo que eram sapatos de gente rica, uma excelente compra!
Quando entro na sala, fico pasmada! Nunca vi coisas tão finas! A mesa é grande e está cheia. Pratos brancos e dourado – vê-se perfeitamente que são caríssimos – e uns dez talheres para cada um. Acho isso muito estranho, para quê tanto garfo e tanta faca? Com certeza, tinha aqueles modelos todos e não sabia qual escolher, e então deixa à nossa escolha. Que gentileza da Angélica! Sentamo-nos e posso ver melhor as coisas sobre a mesa. A mãe da Joaninha deve ter dificuldade em decidir-se. Além de talheres a mais, pôs três copos para cada um, um com cada tamanho. Estou mesmo a ver o Zé a encher o maior com vinho. Vou ver se lhe dou umas cotoveladas de vez em quando, a ver se topa quando estiver a exagerar. - Tem aqui uma linda mesa, Angélica. – Li que é de bom tom elogiar as coisas da dona da casa. E ela deve gostar, porque agradece sempre. O Zé espeta o garfo numa coxa do frango e põe no prato dele. Estou sempre a dizer-lhe para esperar a ver se mais ninguém quer a coxa, mas ele não aprende. Então, antes que alguém se adiante, agarro num garfo qualquer e tiro eu a outra coxa. O frango tem um sabor esquisito. E a cor também. Acho que depois vou dar umas dicas de cozinha à mãe da Joaninha, ela vai adorar. Aliás, ela deve estar a gostar imenso de mim, já a apanhei várias vezes especada a olhar para a minha roupa e o meu penteado novo. - Já leu o que vai acontecer na novela da TVI? – pergunto-lhe, para mostrar que sou culta. – Na Maria vem a contar tudo. Adoro a Alexandra Lencastre! Vejo-a na novela das 5, na das 7 e na das 9! É o máximo aquela mulher!
Ela acena negativamente com a cabeça. Não deve ser fã da Alexandrinha… Talvez prefira a Lídia Franco. Há gostos para tudo, não é? O António fala com o meu Zé sobre o jogo do Benfica – Porto, mas o Zé não se cansa de encher o copo de vinho. Resolvo dar um pontapé na perna do Eduardo, para ele segurar o pai, mas engano-me e acerto na Joaninha. - Desculpa, querida! Foi sem querer, deu-me aqui uma comichão na perna. – Tenho de ser eu a controlar o Zé. A Angélica fica silenciosa, deve estar à espera que o Eduardo faça o pedido. Também acho que está em boa hora. Faço-lhe sinal, e ele entende. Está muito bonito o meu filho, com o fato novo. Pega na faca e dá umas pancadinhas no copo. Espero que não o parta, deve custar uma fortuna e ainda estamos a pagar as obras na garagem. Vejo o meu menino levantar-se e começar o seu discurso de pedido de casamento. Sinto-me tão emocionada com tudo isto! Já nos estou a imaginar todos juntos, a jantar uma semana lá em casa e uma cá, e a irmos todos de férias para o Algarve! Eles vão adorar a minha feijoada de Verão, que na praia faz sempre um sucesso! Ainda no ano passado me pediram a receita duas vezes. E vamos partilhar segredos, eu e a Angélica, e contar os defeitos todos dos nossos maridos. Até podemos ir juntas à cabeleireira! Assusto-me quando a Angélica grita um “Não” saído do nada. Estará com algum problema? Ficamos todos a olhar para ela – até o cão, que não largou mais os sapatos do Zé – à espera para ver do que se trata. Alguns segundos depois, ela acaba por falar. Ah, é tão gentil, quis servir a sobremesa. Sorte do meu Eduardo em arranjar uma moça como a Joaninha. E que bem que lhe fica o anel que comprei nas penhoras para ele lhe dar. Só tem de continuar a pensar que era da minha avó. Li que é chique ter jóias de família.
White Feather Abril de 2009
(No âmbito do Curso de Escrita Criativa, por Pedro Sena-Lino, no Porto)
|