O Avô

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White Feather

O Avô
Domingo, 25 Abril 2010 20:13
Com os seus olhos preto-noite, fitou o espaço universal em seu redor. Tudo era imenso, majestoso, e ao mesmo tempo, alcançável. A cada inspiração do ar nocturno e enregelante da montanha, sentia nos pulmões a estranha certeza de que a eternidade incomensurável estava à distância de um mero fechar de olhos, um lançar-se destemida para o abismo. Longos anos pesavam-lhe nas costas jovens. Nova, sentia-se velha. Como se o seu corpo funcionasse com um eternómetro que lhe garantia a vida eterna das células involuntárias, mas esquecesse a alma cansada e gasta. Sabia a pó, a névoa.
Do alto da paisagem familiarmente distante, acariciava-lhe o rosto a lembrança saudosa da primeira visita à gruta, quente, iluminada e rugosa, de paredes raspadas a braille, desenhadas de estrias sem forma. Ele segurara-lhe a mão temerosa com delicadeza, e a mão dele, grande e forte, matara-lhe a fragilidade. Naquela época, ele era um homem roliço, de músculo vibrante e confiante, respeitado por todos. Era o avô paternal, o guia à construção do bom carácter.
Culto, em tom misterioso ele apresentara-lhe aquela gruta como quem descreve uma filha, amada e querida, nos seus defeitos e virtudes. Com ele, conheceu cada fragmento, estalagtites e estalagmites em labirintos de rocha e alma escorrida. As pequenas lagoas iluminadas pelos raios de sol que se atreviam por fendas perfuradas ao som do vento, inundavam de paz, sonho. Ali o tempo parara. “Aqui tudo é eterno.”, dissera-lhe.
Durante anos, fizeram daquela visita um ritual único. Como uma celebração de fé a um deus da Natureza, trepavam a longa montanha para ver a gruta e os seus novos traços. A cada ano, revelava-se uma fenda mais incrível, um cristal recém-nascido. Tal como a gruta, o avô ganhou novos contornos.
Inundou-se uma vez mais do ar frio da noite, e sentiu-lhe a fisionomia marcada. A idade fizera-o magro, pequeno, sorriso e rugas sábias que lhe emolduravam a boca. Por fora, era outro homem, mas por dentro, ela sabia-o a personificação da gruta: sempre bela, sempre inabalável.
Olhando para o céu escuro tristeza, sentiu uma lágrima traidora descer-lhe pelo rosto, qual alpinista suicida. Abriu a mão para fitar o dedal de porcelana pintado com estrelas. Sacudira-lhe o pó o melhor que fora capaz, esfregando-o na camisola cansada. As estrelas viviam ainda uma cor amistosa, como um dorminhoco que desperta com um sorriso. O dedal parecia agora muito mais pequeno, na sua mão de mulher crescida.
O avô adorava dedais. Escondida, brincava com a colecção dele, criando histórias para cada ilustração delicada. Na altura em que o dedal foi roubado, o favorito do avô, ela pintara aquele dedal branco e oferecera-lho, com estrelas para iluminar o olhar triste que se apoderara dele. Fora o melhor presente que ele já recebera. Amor e inocência ao toque de um dedo.
Numa das viagens, adormeceram-no num saco de cetim e enterraram-no num canto da gruta, marcando o local predilecto dos dois. O avô explicara-lhe que aquele presente ali estaria seguro, a sepultura ideal, e que um dia que a sua velhice terminasse, ela poderia recuperá-lo e tê-lo junto a ela para sempre, pois a sua alma estaria no dedal. Assim, não viveria a preocupação desesperante de o perder.
Agora que fitava o dedal, fresco e delicado na mão suja de terra desiludida, desejava que o avô fosse mais do que uma lembrança no seu coração de menina. A gruta já não fazia sentido para ela. Com os dedos incrédulos, fechara os olhos dele nessa manhã, e fechara-se para a vida. Estava decidida a acompanhá-lo para sempre, em quaisquer descobertas e caminhadas. Até ao fim do mundo. Até ao fim do universo.
Inspirou… Fechou os olhos calmamente, e num voo de libertação, abandonou para o abismo o branco vazio que por esse dia ameaçara dominar a sua alma… E junto com o dedal, voou.


White Feather
27 de Fevereiro 2009
 

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Cidade: Porto

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