De Sophie Kinsella. Uma mulher vê-se descoberta nas suas mais mirabolantes mentiras. Viciante e muito divertido!
De Francisco C. Xavier. O relato comovente do espírito André Luíz após a sua chegada à espiritualidade.
De Stephenie Meyer. Uma bela história de amor entre uma humana e um vampiro, uma viagem ao maravilhoso.Com alguns traços e palavras se desbrava a profundidade de uma alma...
Vamos viajar?
White Feather
| Liberdade |
| Segunda, 03 Maio 2010 23:48 |
Todos os dias eram iguais. Levantava-se antes da luz, quando os últimos pirilampos ainda brilhavam no sossego dos arbustos. Lavava o rosto na bacia de porcelana branca e tosca, com contorno em risco azul e pequenas flores pintadas à mão. A água fria endurecia-lhe as mãos, e despertava-a do sono. Em seguida, vestia a saia castanha, em tecido grosseiro e que lhe pesava na anca, e com o corpete verde cobria a blusa branca, rendada nas mangas. Por fim, punha-se em frente ao espelho, observando o rosto de jovem mulher. Não combinava com as mãos marcadas pelo trabalho da casa. Prendia os cabelos castanhos com os ganchos, e assim estava pronta.Saiu para a cozinha, enquanto o marido ainda ressonava no quarto. E tal como no dia do casamento, há quatro anos atrás, continuava a achar-se demasiado nova para ser já uma dona de casa. Além de que, na verdade, não amava aquele homem com quem se deitava todos os dias. Mas na aldeia onde vivia, a mulher não tinha direito a grande opinião quanto ao casamento que o pai lhe escolhia.
Contudo, apesar de Maria ter silenciado na expressão verbal, o seu pensamento mantinha-se. Sempre sonhara ir para a cidade, estudar e ser professora da escola primária, como a que tivera e que considerava tão importante por lhe ter ensinado a ler. Imaginava-se a viver num sítio grande, com prédios e jardins cuidados, com carros e pessoas bem vestidas e cultas. A vida dera-lhe a volta, e agora apenas os sonhos viviam nela.
Pegou numa maçã da tigela onde tinha a fruta, em cima do móvel de madeira áspera, e sentou-se à mesa. Tudo era duro na sua casa. Os móveis, o silêncio, o amor do marido. Duro e triste.
O piar do pardal despertou-a dos pensamentos já habituais. Há dois anos que José o capturara e mantivera cativo na gaiola de madeira, dando-lhe todos os dias água fresca e pedaços de maçã cortados por ela. O pardal tinha mais atenção do marido do que ela, o que a seu ver, era um alívio. Já estava habituada.
Mas curiosamente, o pardal parecia gostar mais dela do que de José. Olhava-a, com os olhitos redondos e negros de um universo desconhecido, com um brilho de quem compreende. Quando ela lhe sorriu, ele retribuiu com um novo piar e o agitar das asas.
Maria pegou numa faca, segurando o cabo de madeira com os dedos calejados do cajado e da água com sabão de lavar aa roupa. O sol já ameaçava espreitar pela pequena janela, cortando a impureza do vidro grosso que protegia o interior da casa do mau tempo. Um fio de ouro tocou ao de leve a mesa, avançando timidamente para a mão dela.
Espetou a faca na maçã, fazendo estalar a pele vermelha num odor suculento. Traçou um golpe certeiro, e em seguida desferiu um outro golpe semelhantemente milimétrico, cortando um gomo. Uma lágrima do fruto caiu-lhe na mão, que ela beijou suavemente.
Animado pelo odor da maçã tentadora, o pardal piou, enquanto saltitava na gaiola.
- É por isso que gostas tanto de mim... - murmurou-lhe Maria, com o gomo na mão. - Dou-te um pouco de alegria dentro da tua prisão, não é?
Ouviu o marido a entrar na cozinha e calou-se. O cheiro da ausência de higiene era o cumprimento matinal, e por muito que tentasse ignorar, o nariz dela insistia em dar-lhe uma leve náusea todas as manhãs. Os rapazes da cidade seriam mais asseados, com certeza.
- Ainda não foste buscar o leite? - inquiriu ele, a voz rude a silenciar o ouro do sol.
- Vou já. - respondeu ela, fitando o gomo da maçã, enquanto lhe retirava com o bico da faca dois caroços.
- Deixa estar, eu vou. - Ele acabou por dizer, num tom de quem não está para discussões. Para José, aquela esposa era um mistério. Quando o pai dela lhe propusera casamento, jurara a pés juntos que ela era sossegada, mas um bom partido como mulher. Que cuidaria da casa com ânimo, e que embora fosse sonhadora, com uma mão firme assentaria na realidade e adoraria o marido como quem adora Deus.
Quatro anos depois, José começava a ter quase a certeza de que fora ludibriado. Aquela mulher tinha defeito, e não lhe encontrava emenda. Era calada, como se dentro da cabeça vivesse num mundo diferente. Fazia as tarefas diárias como uma concha vazia. Mesmo na cama, quando ele a procurava, ela limitava-se a ceder em silêncio, e no fim, virava-se para a parede sem pedir um aconchego sequer. Uma tristeza.
Maria viu-o sair porta fora, e sorriu instintivamente para o pardal. Ao piar dele, percebeu que de algum modo misterioso, ele a compreendia. E naqueles olhinhos redondos e negros, viu o brilho da cidade dos seus sonhos, da vida de mulher feliz.
Pousou a maçã cortada em cima da mesa, aconchegada junto de uma laranja que colhera no dia anterior, ainda com a rama de largar folhas verdes. O sol já inundara a mesa totalmente, dourando-lhe as mãos, a madeira, a fruta e as penas do pardal sorridente. Os olhos caíram-lhe então sobre o balde do leite, que o marido saíra sem levar.
- Aquele idiota esqueceu-se que não pode trazer o leite na algibeira! - comentou com o pardal, com um sorriso irónico. Ele saltitou na gaiola, ansioso pelo gomo da maçã que ainda restava nas mãos dela.
O pensamento iluminou-se-lhe de imediato. Olhou para o relógio, que indicava as 5h30 da matina. O marido não tardaria a voltar em busca do balde.
- Quem diz que não podemos conseguir a nossa liberdade? - murmurou ela para o pardal, enquanto pousava o gomo da maçã diante dele e abria a porta da gaiola. - Só temos de ter uma ajudinha...
Resoluta, levantou-se, e antes de sair pela porta de casa, de balde na mão, em busca do marido e do leite, deixou a janela da cozinha aberta. Pelo menos, alguém seria feliz nesse dia. Mesmo que apenas o testemunhasse com o piar.
White Feather
2 de Maio de 2010 _____________ Texto criado para o exercício "Palavras para uma imagem", da Fábrica de Histórias. |
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