A Flor Dourada

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White Feather

A Flor Dourada
Segunda, 05 Julho 2010 10:33
O tempo parou nela. Com a flor na mão, sentia ainda a doçura com que ele a colhera para lha oferecer. As pétalas douradas e imortais brilhavam-lhe nos olhos doces que a cada elogio dele se iluminavam. Quanta saudade tinha dele…
Fechou os olhos pela milionésima vez, envolvida nesse pensamento que a embala tranquila. E tudo se tornou vivo de novo.
Estava sentada no banco de jardim, entretida a bordar uma tira para aplicar numas toalhas que a madrinha lhe dera para o enxoval. Adorava o modo como a agulha invadia o tecido de linho, perfurando-o num pedido de licença silencioso, acariciando-o depois com a linha que suavizava a sua passagem. A cada travessia, um pequeno traço se derramava no tecido cru, e ia somando o desenho, como gotas que se juntam e dão origem a um oceano. Bordar era para ela um prazer, uma dança das mãos delicadas.
Já tinha visto aquele rapaz várias vezes ali por perto. A primeira vez que o viu, foi mero acaso. Levantou os olhos ao escutar as gargalhadas de uns gaiatos que atravessaram o jardim a correr, e reparou no rapaz sentado na beira do passeio, do outro lado da rua. Compenetrado num mundo muito seu, ele desenhava. Naquela primeira vez, ela resolveu não lhe dar muita atenção.
Contudo, tal como a presença dela, diária, no banco de jardim, a presença dele foi-se fazendo notar. Todos os dias, ele desenhava, e por várias vezes, pareceu-lhe que os olhos dele tocaram os dela. Corava terrivelmente, e nesses dias não levantava mais a cabeça do bordado.
Um dia, ele sentou-se no lado da rua em que ficava o jardim. Segurando a flor nas mãos trémulas, ela deixou cair uma lágrima na recordação. Era como se tivesse sido hoje.
Acabada de dar um ponto no desenho de um pássaro, os olhos dela buscaram ansiosos a esquina do costume. Num só segundo, sentiu-se disparar da desilusão para o espanto. Ele estava no passeio que ladeava o jardim, virado para ela, como sempre, a desenhar. Nesse mesmo segundo, ele olhava para ela, e sorriu. Sem pensar, ela corou num sorriso disfarçado, e continuou o bordado.
Vários dias se passaram, e a distância do rapaz foi diminuindo lentamente. Sentava-se no chão, com o bloco sobre as pernas, e o lápis de carvão na mão, e olhava para ela, enquanto ela bordava. Junto com o passar dos dias, o sorriso dela foi ganhando um lugar fixo no seu rosto, sentindo o calor do olhar dele a queimar-lhe a pele alva e pura.
Aquele encontro silencioso tornou-se um grande ponto do dia, determinado para ambos. E quando a mãe dela lhe disse que teriam de viajar até à aldeia de onde vinham, para rever os negócios, o coração dela caiu-lhe aos pés. Precisava daquele momento no jardim, mesmo nada sabendo do alvo do seu sorriso. Era por ele que sorria, era para ele.
Sentou-se com a flor dourada na mão. A dor da distância vivida naquela época palpitou-lhe na alma como se fosse hoje, como se naquele mesmo momento ela fosse arrancada rumo à aldeia e ele ficasse abandonado, sem nada saber do seu sorriso. Suspirou na lembrança, e as frágeis pétalas estremeceram com o ar exalado da sua boca.
A semana que passara na aldeia ardeu-lhe no coração como brasas perfurando um tecido delicado. A saudade daquele estranho familiar toldava-lhe o pensamento, não lhe dando sossego tempo algum. Questionava-se o que pensaria ele da sua ausência. Questionava-se se ele se importaria. E se quando regressasse, ele não mais estaria no jardim.
Tentou disfarçar o tempo todo, para que os pais não se dessem conta de que algo a apoquentava. Mas nos momentos só, durante o dia caminhava por entre as flores do campo, sonhando-o ao lado dela, a trocarem algumas palavras pela primeira vez, e durante a noite, sonhava com o toque da mão dele na dela.
Nas flores via o perfume do jardim de um amor silencioso, e indagava-se se alguma vez lhe seria dado a conhecer a arte a que ele tanto se dedicava.
E chegou mesmo a desabafar com a prima que vivia na aldeia, contando daquele encontro inocente e magnífico, do qual estava já dependente para ser feliz. A prima, amiga fiel, jurara segredo, e confessara também os seus amores de moça.
O dia em que regressou à cidade foi de festa. Pelo menos dentro dela, pois os pais não poderiam desconfiar de nada, sob pena de a impedirem de sair de casa para ir ao jardim. A viagem de carro foi feita com um sorriso inconsciente nos lábios rosados, com o passar das casas e dos campos diante da janela. Era bom andar de carro, agora que eram vendidos pela primeira vez às pessoas de posse da cidade. O embalo do motor fazia-a sonhar acordada.
Naquele mesmo dia, pediu licença à mãe para ir até ao jardim dar um passeio e matar as saudades das flores. Saiu disparada de casa, tão apressada que se esqueceu de levar o bordado. Nada importava, queria voar, se pudesse, para novamente marcar presença no seu banco.
Chegando lá, sentou-se ofegante, com o coração a bater-lhe na boca. Só então se deu conta de que levava as mãos vazias, e não tinha como disfarçar os seus olhares. Entrelaçou as mãos nervosas, tentando acalmar a ansiedade, ao mesmo tempo que perscrutava a paisagem em busca da figura querida. Mas na ausência dele, a respiração não acalmou.
Os dedos apertaram-se num sufocar tenso, e um nó assomou-lhe à garganta. Não podia ser. O que ela temia não podia ter acontecido. Seria muito cruel, um destino implacável e frio, a visão dele ter-lhe sido arrancada em apenas uma semana de ausência.
Esqueceu a necessidade de disfarçar, e o seu olhar começou a percorrer os cantos e espaços, o passeio, os arbustos, a rua. Ele não podia ter desaparecido! As visitas ao jardim não seriam a mesma coisa, e o bordado perderia toda a cor…
- Pensava que tinha feito algo errado, e te tinha afastado.
A voz ao lado dela sobressaltou-a. E o coração assomou-lhe à cabeça quando viu os olhos dele mais perto do que nunca. O rosto ferveu-lhe de vergonha, e os dedos nervosos apertaram-se até doerem. Ali estava ele, sentado no banco dela, sem o silêncio da timidez.
A pele morena brilhava ao sol, num contraste extremo com a pele dela, branca e delicada. Os cabelos rebeldes espalhavam-se em caracóis negros na cabeça de jovem, e os olhos verdes roubavam a alma dela naqueles segundos.
- Queres ver? – perguntou ele, apontando para o bloco de papel onde há tanto tempo desenhava. – Está pronto, finalmente.
A cabeça dela moveu-se instintivamente, afirmando a sua curiosidade. E quando os seus olhos repousaram no desenho dele, sentiu-se estremecer. No papel branco e tosco, em traços perfeitos de carvão, estava uma composição de várias representações dela. Ela sentada no banco, a bordar, ela olhando o horizonte, ela a sorrir, o seu rosto com tal detalhe que parecia que durante toda a sua vida ele não olhara para nada mais além dos traços dela.
A boca abriu-se-lhe em surpresa, e ele riu-se.
- Espero que não te importes… Não pude resistir, estavas linda. – Pousou a folha no colo dela, e deu-lhe para as mãos a flor dourada. – Quer dizer, és linda.
O sorriso dela rasgou-lhe o rosto vermelho pelo elogio, e o silêncio foi quebrado. Naquele dia, a flor dourada foi guardada religiosamente na gaveta do quarto, para durar para sempre.
De repente, a porta do quarto abriu-se, e ela despertou da recordação. A flor nas suas mãos figurou-se-lhe no seu estado real, seca e com algum pó, apenas uma amostra do esplendor dourado que fora outrora.
- A pensar na vida, Amélia? – disse ele, com um sorriso que lhe iluminava sempre os olhos verdes e fazia esquecer todas as rugas que lhe rabiscavam a pele morena.
E entrando, foi junto dela e abraçou-a, sob o quadro com o desenho do rosto dela, a sorrir, sentada no banco do jardim.


White Feather
4 de Julho 2010

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Texto criado com base na proposta de exercício "Palavras para uma imagem", da Fábrica de Histórias.
 

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Cidade: Porto

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